Deitada sobre a cama, leio um livro embalada pelo pequeno som que chega do vento. Um sussurro fraco num dia de inverno. A janela permanece aberta desde o almoço. Gosto do ar fresco e renovado que invade o quarto. Enquanto escrevo este post, algo raro acontece, perco a linha do texto que me prendia e agarro-me ao som de um avião, que ouço rasgar o céu semi escuro. Um avião que me lembrou que gostaria muito de voltar uma terceira vez a Paris. Mas de imediato este pensamento é irracional, ao ponto de me fazer questionar o direito que teria eu de pensar em viagens (?) ... e esqueço! Não é algo prioritário e não é de todo o que mais desejo - ponto.
Estar em casa é ficar atenta a estas pequenas coisas, coisas essas que me distraem e me fazem companhia no meu silêncio. Antes mesmo de me estender sobre a cama e começar a ler, acendi uma vela, por todos os que precisam de luz, por pessoas amigas, pelos próximos e não próximos. Está sobre o meu lado direito. De vez em quando olho para ela e fixo-a e penso nem mesmo a janela aberta, perturba a sua chama. Intacta, serena, segura sem se desviar do seu propósito ali está ela iluminada. Já o meu lado esquerdo interno, debaixo do peito, inquieta-se e preocupa-se.
Na ausência de tudo, despertam-se os sentidos e ficamos famintos, vulneráveis e atentos ao nada que de repente passa a ser tudo. Valorizamos o que temos e o que não temos e nesta tomada de consciência só temos que agradecer e agradecer.
A chávena de chá arrefeceu, a noite chegou é hora de fechar a janela e a cortina. Pousar o livro e deixá-lo também ele descansar, dar-lhe uma pausa e congelar o momento onde fiquei.
Devaneios à parte que as estrelas são reais e é na escuridão que nos iluminam caminho.
Se a passada semana foi uma semana cheia de emoções negativas com preocupações a nível familiar e pessoal este fim de semana trouxe-me a paz que eu precisava. No meu seio familiar, na minha casa, com toda a simplicidade deixo os dias e as horas decorrerem ao seu ritmo e é justamente nesta calma que dou graças a Deus por ter saúde e ser alguém de valor. Gostar de nós é tão importante para conseguirmos ultrapassar as nossas feridas internas, os nossos receios, as nossas sombras. Na minha vida não há espaço para rancores, para má fé, para zangas, para medo. O mundo não é perfeito, nós também não, por isso existe o perdão e é quando perdoamos ou pedimos perdão com o coração, que podemos seguir em frente, mais leves. Dói, mas tem de ser. Na vida não podemos obrigar a que todos gostem de nós, a dizer sim para agradar, a sorrir quando não temos vontade. Na verdade só temos de ser verdadeiros para connosco e isso não quer dizer que sejamos más pessoas, ou que a outra pessoa também o seja. Por vezes, existem incompatibilidades e maneiras de estar e ver diferentes e está tudo bem. Nem eu sou obrigada a identificar-me com alguém, nem alguém o é comigo. E simplesmente seguimos caminho nem que seja sozinhos, que aos poucos encontraremos as pessoas com as quais nos identificaremos.
Desde do confinamento eu passei a ter menos tempo para mim, para a minha criatividade, para os meus passeios de contemplação, que é muito do que inspira os meus dias. Digamos que é mesmo a minha melhor terapia ou meditação. A minha vida doméstica sobrepôs-se totalmente a tudo o que eu fazia antes da pandemia e passei a ficar sem tempo para fazer tudo. Passei a dormir mal, a ficar mais ansiosa, mais cansada. O meu marido passou a estar mais tempo em casa e eu perdi o meu negócio em março. É difícil, chegar a meio do mês e fazer esticar um orçamento, é difícil nos habituarmos a não fazer escolhas, porque simplesmente não temos oportunidade de escolher e é mais difícil ainda, quando somos pais e nos privamos. Porém, apesar de a vida me mostrar este lado mais incerto e menos bom, a vida deu-me oportunidade de reflectir e é no meio destes momentos de privação que eu sou grata, muito grata e feliz com o "pouco" que tenho. É também no meio desta incerteza que a pandemia me deu espaço para no meio dela encontrar a paz no desespero.
Se há coisa que me aborrece e protesto é a falta de tempo para fazer o que gostaria, de resto está tudo bem. E está tudo melhor quando: tenho uma casa para viver, quando tenho a família com saúde, quando acordo ao lado de quem amo, quando o meu filho traz tão boas notas, quando falo com os meus pais, quando fazemos um lanche com os restos que existem na despensa, quando tenho o suficiente para os meus dias, quando escrevo no meu blog e tiro fotografias bonitas, quando vejo o lado positivo das coisas, etc...
uff... foi uma semana em que muitas coisas desabaram em cima de mim e me vi abalada e quase me deixei ir numa maré de negativismo, mas felizmente libertei-me. Gostar de nós é a base da nossa felicidade, acreditar e ter fé também.
Na nossa casa não existe despensa, então esta simples prateleira com frascos ikea foi o "salva-vidas" que rapidamente se tornou numa suposta despensa. Já devem ter reparado nesta fotografia em outros posts no Instagram.
Aqui nestes frascos de vidro é onde guardo tudo, desde as massas, ao arroz, às farinhas, às aromáticas ervas secas e às cheirosas e mágicas especiarias. Também se guardam as bolachas e os cereais para os mais gulosos cá de casa! Em suma, nos vidros podemos guardar todos os secos e desidratados. Nas minhas prateleiras os frascos são quase todos ikea, porque já têm imensos anos e porque hermeticamente fecham muito bem. A nossa micro cozinha é muito húmida no inverno, alguns alimentos criavam rapidamente bolor e assim fica tudo mais protegido, sem correr o risco de os alimentos se estragarem. Também tenho uma panóplia de frascos reutilizados: desde os de polpa de tomate, de doces, de mel, etc...
As compras:
Por norma aproveito os mercados de rua mensais da nossa região e é aí que tento reabastecer a despensa. É também uma simples forma de dar algum apoio e suporte a quem mais precisa.
Costumo comprar muita abóbora, porque estamos na altura dela e parti-la e congelá-la para a sopa, ou para uma compota ou puré. Aproveito e compro também ramos de manjericão, oregãos, salsa e corto tudo e congelo. Adoro mercados e feiras, pena que agora tenhamos que circular com mais cuidado e fazer tudo em modo apressado.
Uma forma de oferecer um presente original e diferente é mesmo ir a um mercado de rua e comprar alguns alimentos e oferecer num cabaz usado que tenhamos a mais em casa. Ou fazer uma compota de abóbora, com umas bolachas de aveia, canela e noz feitas por nós. São gestos muito significativos e estamos ajudar os pequenos agricultores, aqueles que trabalham no campo e têm o seu rendimento através das feiras e mercados.
Deixo-vos hoje com uma receita.
Molho de tomate caseiro:
Num tacho ponho uma grande cebola, dois dentes de alho se forem muito grandes ponho apenas um, tomate caseiro daquele suculento, um pouco de pimento vermelho, umas generosas folhas de manjericão fresco, oregãos, pimenta moída, sal grosso e um fio de azeite extra virgem. Deixo ao lume em lume brando até ficar cozinhado. Depois é só dividir e congelar.
Por aqui, continuamos sem pressa a viver devagar ao nosso ritmo. E como vivo eu neste ritmo acelerado de contra relógio, em que hoje é segunda-feira e amanhã é fim do mês? Bom, para começar sempre fui uma pessoa do aqui e agora. É claro, que Eckhart Tolle teve o seu peso, conta e medida nesta tentativa de modo de vida, mas tento me focar no presente. A minha mãe e o meu marido sempre me disseram que devia pensar no amanhã. Acontece, que continuo literalmente na mesma! Se faço bem ou não, não sei... mas é assim que me compreendo.
Tirando os picos de calor extremo no verão, tento ao máximo aproveitar e respeitar os ciclos naturais das estações. Viver sazonalmente é mesmo isto, não ter pressa no dia de amanhã e viver o presente com o que temos e aprender com ele, o que nos dá e trás; porém, não deixando nunca de depositar esperança no amanhã. O que foi, já não é, o bom fará parte da nossa morada consciente e trataremo-lo como um bom hóspede que se hóspeda nos recônditos da nossa memória, o menos bom... bem esse é deixar partir ao seu ritmo.
Não pensem que vivo permanentemente tudo isto como uma super mulher, um exemplo ou de ânimo leve. Por detrás das fotografias bonitas da by Deva, existe uma pessoa calma mas sensível. Segura, mas ansiosa. Meiga, confiante e por vezes frágil.
Mas aprendi isto: Estejas sem rumo, triste, desmotivada, escolhe um lugar de silêncio e fecha os olhos, respira e pensa no melhor que tens de ti, escuta-te e ouve-te. E sê grata, sempre grata por estar aqui e agora.
Aconteça o que acontecer vive o teu presente, acredita sempre em ti. Porque te mereces!













































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