Pessoas como Nós (4)


 A Virginia Otten é a minha convidada para este mês de Dezembro mês de Natal, aqui no by Deva na rubrica  "Pessoas como nós". Sabem aquelas pessoas que muito antes de nós começarmos a coser já o faziam? E faziam-no tão bem que nos habituamos desde sempre a acompanhar o seu projeto, o seu percurso, a Virgínia é destas pessoas que vos falo. O seu blog o "Amo-te mil Milhões" é um diário onde a Virgínia regista o seu trabalho, e um pouco dos seus dias, agora ocupados pela maternidade de uma menina de nome Maria Alecrim. Vive em cascais com a sua família, mas sei que adoraria morar no campo, talvez um dia quem sabe a Virgínia não se encante aqui pelo meu campo. O seu trabalho diferencia-se por ser único, nas suas peças podemos presenciar todo o cuidado, dedicação e pormenor. Uma das coisas que mais admiro no seu blog é a escrita, despretensiosa, simples, cuidada e sobretudo bonita. Usa as palavras com um dom admirável, com alma e coração. Para mim será sempre a rapariga das lebres e daquele post maravilhoso que escreveu sobre o seu encontro com o escritor Mia Couto. Obrigada Virgínia por teres aceite este meu convite!




Virgínia, fala-nos um pouco sobre ti... 
O meu nome é Virgínia mas a família e amigos tratam-me por Gina. Só a partir dos 30 anos é que comecei a habituar-me ao meu nome. Nasci em Lisboa e cresci perto de Sintra, na casa dos meus avós paternos. Aos 18 anos abri as asas e fui para a Holanda onde acabei por ficar 5 anos. Lá descobri o que era ter raízes – e voltei. Hoje, sou mãe a tempo inteiro de duas crianças maravilhosas e trabalho em casa naquilo que gosto, quando as duas crianças maravilhosas finalmente adormecem.   

Quais os teus hobbies preferidos? 
 Não me sinto muito à vontade com o termo hobby ou passatempo. Fazer algo para passar o tempo é impensável para alguém como eu que não tem tempo suficiente para tudo o que quer fazer. Felizmente, o meu trabalho é aquilo que mais gosto de fazer: trabalhar com as mãos, escrever, fotografar, imaginar coisas novas e tentar dar-lhes forma, exprimir emoções e partilhar um pouco de inspiração e esperança pelo mundo. Para passar o tempo gosto de olhar para o mar, ou o céu, ou mesmo para dentro. São uns minutos preciosos.   


O que te levou a criar um blogue?
Estava desempregada e não encontrava trabalho. A minha família começou a puxar por mim, a pedir-me para fazer coisas para dar aos amigos. Os amigos gostaram, quiseram mais e o ciclo foi alargando. Senti necessidade de criar um blog essencialmente para mostrar o que estava a fazer. Tudo correu bem e eu percebi que tinha encontrado a luz ao fundo do túnel. Com o desenrolar do tempo, o blog passou a ser muito mais que uma montra para os amigos. Não me consigo imaginar sem o meu blog.  


Se tivesses que juntar duas bloggers nacionais para um jantar temático quais seriam as tuas convidadas?
Voltaria a jantar com quem já tive o prazer de jantar :)

Quais os teus blogues preferidos nacionais?  
A ervilha cor de rosa, 30 e picos, 40 e tal, kase-faz, matilde beldroega, mi mitrika, kaputt 2.0, noussnouss, saber fazer, entre outros.

E internacionais?  
Soulemama, inside a black appel, doll, down to earth, elsa mora, froken skicklig, tous les jours dimanche, entre tantos outos…!

Que opinião tens em relação aos workshops de costura?
Acho bem, desde que ministrados por pessoas competentes e com bastante experiência. É muito importante passar o saber de pessoa em pessoa, de geração em geração. Tenho pena que os trabalhos manuais tenham desaparecido das escolas em tão pouco tempo. Talvez por isso mesmo se note esta sede do saber fazer, fazer à mão, fazer em casa – é algo que faz parte de nós e não nos pode ser retirado.  

Como surgiu o teu trabalho na área do artesanato? 
Desde muito pequena que acompanhava a minha mãe, artista plástica / artesã, em feiras de artesanato. Convivia com artistas e artesãos, portugueses e estrangeiros, sabia que era uma vida difícil mas de gente feliz, que trabalhava por amor. Por outro lado via a minha avó como um ser super-independente e empreendedor, que fazia a sua própria roupa bem como a de quase toda a família, que alimentava um batalhão de gente todos os dias sempre com um sorriso na cara como se nada lhe custasse e que ainda trabalhava fora de casa sempre por conta própria... Olhando para trás era inevitável eu não ter pintado uns quadros, feito umas esculturas e agora fazer uns bonecos. 

O nome do teu projeto deve-se a…?
Na altura, o meu filho mais velho, na tentativa de adiar a hora de ir dormir, dizia-me o quanto gostava de mim. Amo-te cem, amo-te duzentos, amo-te duzentos e cinquenta... e eu repondia na mesma moeda. Até que um dia, ele chegou ao número mais que infinito, o Amo-te Mil Milhões. A partir daí, todas as noites dizia-me “amo-te mil milhões, mãe”. Pareceu-me perfeito.    

De onde vem a inspiração para os teus trabalhos?
 A inspiração... Acho que hoje em dia, com tanta informação que nos chega, é cada vez mais difícil saber o que é a verdadeira inspiração. Para mim, o que me inspira verdadeiramente é estar em contacto com a natureza no seu estado puro, é estar com pessoas especiais, é sentir-me parte de um todo, de uma história que pode não vir a ser contada mas que deixará a sua marca. É, principalmente, lembrar-me do poder que tenho em mãos. E quando vejo a beleza que algumas pessoas conseguem trazer ao dia-a-dia fico nas nuvens.  

Muitas pessoas dizem que é difícil senão impossível viver só do artesanato em termos monetários. O que pensas em relação a este assunto?
É muito difícil. Como já disse, eu vi a geração anterior à minha a lutar por isso e sei que já então era muito difícil. Talvez com a internet as coisas estejam mais facilitadas, mas também nos obriga a outros trabalhos. É possível viver apenas do artesanato mas não da forma como estamos habituados a viver. Sempre existiram artesãos em Portugal e muitos deles conseguiram criar emprego para toda a família. Mas hoje em dia o artesanato é outro e as pessoas têm outros projectos de vida.  

Se tivesses que levar um único livro numa viagem longa, que livro seria?
Uns contos de Mia Couto. A escrita dele é muito poética, sabe-me a água fresca. E os contos têm o tamanho ideal, acabam sempre deixando um doce odor no ar, na última palavra já temos saudades. Adoro.  

Se essa viagem longa fosse de livre escolha, qual seria o destino?
A volta ao mundo! 

Qual seria para ti o melhor desafio?
Juntar um grupo de pessoas e começar a mudar o mundo. Para melhor, claro. Não sei do que estou à espera! 

Qual a tua cor de eleição?  
O azul e todas as suas nuances. O índigo é perfeito.

O melhor filme?
São tantos os melhores filmes!... “Out of Africa” foi uma bela surpresa. Ah! “Mary Poppins” é bem capaz de ser o filme preferido cá de casa.

Personalidade?  
“Personalidade” também é um termo que me incomoda, prefiro “pessoa”. Tive o prazer de falar um bocadinho com Mia Couto e tenho a certeza que teríamos muito para conversar. Gostaría de ter conhecido Agostinho da Silva, Jane Austen, Beatrix Potter e por aí adiante. Adorava passar umas férias em casa da Rhonda, do Down to Earth, para aprender umas coisas. Gosto de estar com pessoas com experiência de vida. 

Objeto preferido?
Os móveis da casa de bonecas que o meu bisavô me fez.   

Site: http://amo-temilmilhoes.blogspot.pt/

Facebook:https://www.facebook.com/pages/Amo-te-Mil-Milh%C3%B5es/151486378277966?ref=ts&fref=ts

8 comentários

  1. O trabalho desta senhora é fantástico e a forma como escreve é sublime.

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  2. Obrigada, Márcia, por teres pensado em mim. :)

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  3. De seguir o blogue da Virgínia há perguntas que talvez eu já conhecesse a resposta, mas gostei de ficar a conhecer mais um bocadinho. Parabéns Virgínia! ;-)

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  4. O amo-te mil milhões é um blogue tranquilo e puro. Gosto muito! Foi agradável conhecer um pouquinho mais sobre a Virginia. Parabéns por esta rubrica ;)

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  5. Gostei muito de ler esta entrevista. :) Parabéns!

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  6. Que lindo o trabalho dela! Adorei a entrevista e voujá conferir o seu blog!

    http://naomemandeflores.com/

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  7. Adoro conhecer novos artistas, novas pessoas que nos passem diferentes conhecimentos e maneiras de viver. E tu, com estas entrevistas, das uma grande ajuda!

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